
O filósofo Thomas Hobbes (1588/1679) teorizou que o homem em estado de natureza é um ser livre, mas eternamente em guerra. Pela paz (ou pela segurança, em tempos modernos), o homem renuncia ao direito à liberdade e, por meio de um contrato social, passa a se submeter ao poder absoluto de um soberano. Assim, para proteger sua própria vida, o homem cria o Estado, ao qual entrega sua liberdade. Repita-se: para ter segurança.
Foi a partir dessa ideia clássica que Bosco Brasil formatou Tempos Modernos. Na nova novela das sete da Globo, o Estado doente cede lugar à eficiente iniciativa privada, que desenvolve condomínios que se proclamam seguros, controlados por computadores, câmeras e seguranças treinados para quaisquer situações. Leal (Antônio Fagundes) é um autodidata, self-made-man, que ergue prédios seguros, controlados por computadores, câmeras e por um exército de ninjas ocidentais.
Bosco Brasil fincou sua trama bem no Anhangabaú, no centro velho de São Paulo, em um prédio que em nada lembra os “edifícios inteligentes” da marginal Pinheiros e da avenida Luiz Carlos Berrini. O Titã 1 da realidade foi construído há uns 40 anos. O da ficção é um “edifício inteligente”, que oferece toda a segurança disponível do mundo em pleno centro degradado de São Paulo (um tanto maquiado na ficção). Um megacondomínio que tem até maternidade, em que se pode nascer e viver sem ter que sair dele, sem enfrentar congestionamentos ou correr riscos. E que reúne todas as classes sociais só porque é novela – assim, a empregada da madame da cobertura vive em uma quitinete nos andares inferiores. Perfeito.
Quando a novela começa, Leal está lançando o Titã 2, muito mais alto e muito mais moderno, a ser erguido onde hoje funciona uma réplica da Galeria do Rock, templo alternativo da rua 24 de Maio. É a deixa para o desenvolvimento da trama. E então surgem as primeiras imagens de Tempos Modernos: aéreas, câmeras que serpenteiam entre arranha-céus, efeitos visuais de computação gráfica, que desconstroem calçadas e edifícios. Um show de virtuosismo técnico.
A modernidade, no entanto, acaba no primeiro longo videoclipe. O texto de Bosco Brasil é uma comédia que só quer fazer os jovens rirem, as donas de casa sonharem e os mais espertos se deliciarem com ironias e metáforas. Porque Tempos Modernos é uma novela conservadora como 99,9% das novelas. Bosco Brasil seria capaz, sim, de apresentar uma narrativa inovadora. Mas não é louco de fazer isso logo em sua estreia como autor-solo da Globo. Bebe da mesma fonte que Silvio de Abreu descobriu no Bexiga há 30 anos. Porque faz um produto para o horário nobre da televisão, um veículo para as massas. Não para uma sala de teatro.
A estreia de Tempos Modernos dividiu opiniões. Uns não gostaram. Outros detestaram. Isso é bom. Melhor do que a indiferença. A audiência, 29 pontos (consolidados, Grande SP), foi menor do que a da estreia de Caras & Bocas (33), mas é uma senhora audiência. Está longe de se anunciar como um fracasso. Pelo contrário, a novela promete. Promete, principalmente, diversão, com uma crítica à neurose pela segurança e um manifesto pela revitalização do centro de São Paulo (mas sem “ganância”, sem obras megalomaníacas) como pano de fundo.


















0 Comments:
Postar um comentário